UTMB 2018 – CCC – 101km

Depois de um mês da prova, finalmente conseguir vir aqui contar pra vocês um pouco sobre como foram os meus primeiros 101kms da vida e suas duras 26h.

Ano passado eu já havia participado do UTMB, mas fui na distância de 56km. Eu já estava há muitos anos correndo distâncias entre 42km e 60km e estava sentindo vontade e motivação para dar um passo a mais. E então, a vida começou a caminhar para que tudo isso desse certo. Passei a ter apoio da Columbia Brasil, e pude ir para o UTMB, representando a marca, juntamente com a Nini (outra alteta Brasileira), e vários outros atletas de diversos países fazendo parte do time Columbia Montrail. Muito orgulho em fazer parte deste time.

A experiência junto à Columbia em Chamonix foi incrível. Teve cocktail com a organização da prova, sessão de fotos na montanha e todo um suporte e atenção na semana da prova.

Eu estava bem ansiosa. Correr 101km é coisa séria, não dá pra brincar. Exige experiência, muito treino e mente forte. Eu não tinha ideia de como meu corpo iria reagir à privação de sono. Como seria passar a noite correndo? Esse era o meu maior medo… Engole o choro, respira fundo e acredita… e vai, só vai!!

Fizemos tudo certinho nos dias anteriores à prova. Comemos em casa, comidas leves, nada que já não estivéssemos acostumadas, para evitar qualquer problema. Carbup na veia. Segui todas as recomendações da minha nutricionista Lívia Hasegawa, e deu tudo muito certo na parte nutricional.

E finalmente chegou o grande dia. Foram 8 meses intensos de treinamento visando um único propósito: cruzar a linha de chegada. Claro que eu tinha alguns objetivos de tempo, mas eu sabia que muita coisa podia acontecer em 101km. Mas a minha meta principal e condizente com o meu desempenho, era fechar em 22h. Tinha a meta sonhadora que era fazer em sub 20 (podia até ser 19h59 😂). E o pior cenário seria fazer em 24h… todas as previsões foram por água abaixo.

Acordamos às 5am e tomamos um belo café da manhã. Às 6h40 encontramos a Deinha e a Manu e fomos para a fila do ônibus que nos levaria até Courmayeur, na Itália, para a largada que seria as 9h (que depois descobri que seria as 9h30, porque eles dividiram as largadas em ondas para diminuir os congestionamentos em determinados pontos das trilhas).

Coração batendo a mil. Eu estava emocionada, com um mix de felicidade e um medinho do que estava por vir. E as 9h30 em ponto largamos para o maior desafio da minha vida.

O lado Italiano do Mont Blanc é maravilhoso. Dava vontade de parar e contemplar. Mas não dava, e já começamos em uma bela subida. Bela, dura e travada. Em vários pontos da trilha formaram-se filas, o que tornou o início da prova um pouco mais lento. Eu estava me sentindo muito bem, energia lá em cima e sem nenhuma dor.

Eu amo descidas, após a primeira subida, desci super bem, correndo firme e confortável. A temperatura neste momento estava perfeita, nem calor e nem frio. Finalizando a primeira descida, começamos a segunda e mais dura subida da prova. Subimos até 2600mts em uma subida bem dura até o Col du Gran Ferret. E ali no meio daquela subida o tempo começou a virar. Chuva e frio. Muita chuva e muito frio. As luvas começaram a ficar branquinhas de geada. Não dava pra enxergar muito longe, estava tudo branco de neblina. E parecia que o cume não chegava nunca. Cheguei ao cume com quase 7h de prova, e tudo ainda dentro do programado. Depois desse cume, veio uma longa descida de 20km. Descida bem técnica mas totalmente “corrível”. Finalizei a descida, com 9h50, e 51km, felizona que estava tudo correndo dentro do programado.

Logo começou a escurecer e era ali que moravam meus medos. Por volta do km 60 meio joelho esquerdo começou a doer. Entre Champex-Lac e Trient (21km entre eles), tenho até hoje a impressão que entrei em um buraco negro. Demorei 5h10 para fazer esse trecho. A dor no joelho fez com que eu me arrastasse tanto na subida como na descida. Nesse momento comecei a pensar em desistir em Trient. Para mim não fazia sentido continuar com dor. Quando finalmente cheguei em Trient, comi, sentei e pensei: vou desistir! Não vou correr o risco de me lesionar. Não faz sentido. Já estava com a cabeça feita, quando chega Manu. Ela me perguntou: “que cara é essa Isa?” E então eu respondi: vou desistir, estou com dor no joelho, estou me arrastando!! Ela gentilmente respondeu: “não vai desistir de jeito nenhum, vamos juntas!! Não vou deixar você desistir aqui, foi aqui que desisti no ano passado, você consegue!!”

Foi o estímulo que eu precisava para não desistir ali. Muito grata a Manu por ter me dado a mão e me convencido a seguir. E pra completar o time, logo chegou a Deinha, com seu bom humor maravilhoso e seguimos juntas madrugada a dentro.

E já não bastava o joelho castigando, o sono começou a pesar. Muito sono!! Em vários momentos eu cochilei andando e acordava tropeçando. Alguns momentos a Manu percebia e conversava comigo, mas estava cada vez mais difícil me manter acordada.

Quando amanheceu, por volta do km 90, acabei me distanciando da Manu, e nessa altura a Deinha tmb já estava na frente. Estáva no início da última subida em direção ao La Flegere. Resolvi encostar e tirar um cochilo. Não estava mais aguentando de sono. Devo ter dormido uns 5min, quando uma brasileira, a Simone, me acordou e me deu uma cafeína que salvou o meu final de prova. Consegui me manter acordada e consegui dar um último gás na subida. Cheguei no Flegere com 24h30 de prova. Eu tinha duas horas para terminar e ser finisher. E eram só 8km para fechar. Mas o joelho não deixa correr com dignidade essa ultima descida, e cheguei a temer que não desce tempo de chegar em 26h30. Fiz o que pude nessa ultima descida.

E finalmente, depois de 26h13, cruzei a tão sonhada linha de chegada. Passou um milhão de coisas pela cabeça. Que jornada incrível!! Foi difícil demais, mas foi surreal conseguir concluir tamanho desafio. Chorei muito! Agradeci! Estava entregue!!

UTMB 2018 – 101km 6000mts D+: 26h13 ✅

Agradeço muito, de coração todas as pessoas que de alguma maneira torceram por mim. Recebi muitas mensagens lindas, que encheram meu coração de alegria. Muito obrigada mesmo.

Agradecimento especial a todo o time Columbia que não mediu esforços na realização desse sonho e a Milk Comunicação que sempre acreditou e confiou.

Um muito obrigada à Fisionoesporte e toda equipe de fisioterapeutas que cuidaram de mim durante todo esse ano e me deixaram sem nenhuma dor.

À minha nutricionista Lívia Hasegawa, que cuidou da minha dieta e elaborou um excelente plano para toda a prova.

Aos meus alunos que compreenderam minha ausência nessas duas semanas e sempre torcem tanto por mim.

Em 2019, voltaremos, sim ou com certeza?

TDS? 😈

Deixe seu comentário